segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Boaventúricas 1: Gaza em 2009 de 1984



É hoje evidente que o verdadeiro objetivo de Israel, a solução final, é o extermínio do povo palestino. [...] nestas condições - e repito, nestas condições - o Estado de Israel tem direito de existir?
Estas são sábias e doridas palavras de um (meu Deus!) Doutor de Coimbra, Boaventura Sousa Santos (BSS). Através delas podemos sentir a indignação sincera, a tortura da alma. E a parvoíce imensa. O artigo (Réquiem por Israel?) pode ler-se no site Carta Maior (12 de Janeiro de 2009). Aos menos sensíveis aconselha-se a sua leitura acompanhada de um famoso adagio de Samuel Barber. BSS faz parte daquele tipo de esquerda constituída por gente que pensa que a verdade dos factos corresponde logicamente à intensidade das suas indignações. Schopenhaueres sem noção do ridículo mas com ligação à internet, escreveriam certamente O Mundo Como Vontade e Indignação, se pelo menos lhes tivesse sido concedido talento similar ao do Artur. Indignações altamente selectivas, desde logo, já que nem sequer se pode dizer que esta rebanhada (constituída, porém, por ovinos independentes que balem pela sua própria boca) se indigna com o sofrimento palestiniano. Em bom rigor, só há indignação perante o sofrimento palestiniano se o sofrimento em causa puder ser imputado a Israel. E só compreenderemos o sentido das actuais e «globais» manifestações pela Paz se tivermos em conta que a globalização se define por isto mesmo: a livre circulação de pessoas, capitais e imbecilidades. O que caracteriza estas manifestações «globais», para além dos já referidos som do balido e do fedor a rebanhada, é o seu uso selectivo do conceito de universalidade. Mesmo quando usada em nome do povo palestiniano, não passa de uma universalidade de circunstância. Afinal, não se viram manifestações «globais» por Gaza aquando da guerra intestina entre o Hamas e a Fatah que, nesse fratricídio recente, matou … palestinianos. A nossa compaixão «global» pelos palestinianos é assim. De uma coerência e de uma elevação estóicas: nem é compaixão, nem é global, nem é pelos palestinianos. No fundo, porque, já o disse, só nos interessam os pobres palestinianos que pudermos imputar a Israel. Estes são os palestinianos dos israelitas, altamente vendáveis, cujas dor e tragédia são fetichizadas pelos deploráveis marketing e mercantilismo do sofrimento. Os outros, nos países árabes «amigos», universalmente esquecidos, são os palestinianos dos palestinianos. E é assim que vamos perdendo o sentido do bom senso, da decência e, sobretudo, do escândalo. Mas para que esta estratégia funcione em pleno, é necessário ainda, como nos ensinou Orwell, controlar o pensamento através do armadilhamento dos conceitos até ao ponto da sua perda de significação. Quando Winston Smith se atreve a dizer que dois e dois são quatro, O’Brien responde: «Às vezes, Winston. Outras vezes são cinco. Outras, três. Outras ainda são as três coisas ao mesmo tempo. Tens que te esforçar mais. O caminho para a sanidade mental não é fácil». E hoje, em 2009 de 1984? Que significa, na «novilíngua» dos nossos dias, «crime de guerra»? Toda a acção militar que puder ser imputada a Israel. A expressão-chave é: «imputada a Israel». Não importa que constituam hediondos crimes de guerra a instrumentalização de civis como escudos humanos, a instrumentalização de escolas, mesquitas e hospitais para fins militares (ou melhor, paramilitares), a instrumentalização dos mortos infantis como propaganda telegénica e, sobretudo, a transformação de toda a população de Gaza na condição de população-refém do Hamas. Não importa porque nada disto pode ser imputado a Israel. E a obscenidade está aqui: na diferença crucial entre «civis» e «combatentes», que o Hamas (como em 2006 o Hezbollah) intencionalmente baralha e confunde ad nauseam, travestindo assim a morte em combate num acto de carnificina israelita (e os condoídos telespectadores que somos, mimos desta fraude, chamam «consciência moral» à sua própria estupidificação). Um militante do Hamas mata como combatente mas morre sempre como civil. Estamos perante um novo e escandaloso tipo de guerra. O combatente israelita veste a farda de soldado quando vai para a guerra. O combatente do Hamas veste a farda de civil. Não travam ambos a mesma guerra, obviamente. O primeiro identifica-se e oferece assim «o peito às balas». O segundo esconde-se e oferece às balas o peito de mulheres e crianças. O primeiro coloca-se à frente do seu povo, protegendo-o. O segundo coloca-se nas costas do povo que diz defender, protegendo-se cobardemente por meio dele. Toda a gente tagarela sobre a «desproporção» (tantos mortos entre os palestinianos e tão poucos entre os israelitas), mas ninguém fala em «desproporção» quando Israel troca centenas de palestinianos vivos por um israelita morto. Há desproporção, sim – do valor que ambos os lados atribuem à vida daqueles que o destino entregou aos seus cuidados. Todas as outras «desproporções» são decorrentes desta «desproporção» primeira. Não é à toa que os abrigos subterrâneos servem, em Israel, as pessoas e, em Gaza, as armas. Não importa. Como Winston Smith, alcançámos a vitória sobre nós próprios. Amamos o Grande Irmão.